Entre futebol, cerveja e mulher

 

  Eu sei que a vida da minha mãe foi mais difícil que a minha. A das minhas avós então... Seguindo a lógica, a vida da minha filha deve ser melhor que a minha. Tomara!

 

  Para vocês não acharem que eu tenho alguns parafusos a menos – apesar de provavelmente eu ter mesmo – o que me motivou a escrever aqui depois de mais de seis meses de profundo silêncio é o fato de nesse momento eu não estar jogando bola. Hmmm... acho que não funcionou!

 

  Tudo bem, eu explico melhor! Eu cresci jogando bola. Com meninos. E meninas também, é verdade. Mas, principalmente, com meninos. Por sinal, eu jogo muito bem, obrigada (Esse acesso de amor próprio já, já, fará sentido)! Na minha família há, ou havia, a tradição de estimular, independentemente do sexo, as pessoas a jogarem bola. Desde criança, eu já entrava no campinho junto com os grandes, no meio de um jogo de futebol que eu achava que era de verdade.

 

  Acontece que as crianças crescem. Chegou uma idade em que meus primos e meu irmão ficaram mais fortes que eu... não nego! E acho que a brincadeirinha com a menininha enjôou... Agora eles querem Futebol com F maiúsculo, agora sim de verdade, forte, macho! Resultado: eu não posso mais jogar sempre! Agora só posso quando for brincadeirinha, sabe? Quando não estiver valendo a vida, como é o que parece que vale nos jogos como esse que está acontecendo neste exato momento e do qual, como eu já disse, eu não estou participando! O time de hoje, (sabe?) é muito sujeirão... É perigoso quebrar a minha unha! Afinal, eu sou uma menina... E meninas choram quando nervosas, em vez de bater (eu sei que, felizmente, não são todas, mas eu sou assim e estou com raiva, então, só por hoje, meu valor é universal!), e isso as torna, ou melhor, me torna frágil...

 

  Então, mesmo eu jogando muito melhor que muita gente que está naquele campo hoje, eu não posso estar lá. Por quê? Porque eu sou mais fraca...

 

Concluo, então, que:

  “Técnica, em futebol, é balela! Basta ser um gigante sem noção, e como eu não sou...”

 

...

 

   Hmmm... Se bem que meu irmãozinho de 10 anos furou essa! Seguindo a tradição da família, adivinhe onde ele está? E, até onde eu sei, eu sou mais forte que ele até os próximos dois ou três anos...

 

  Resta-me buscar uma outra resposta...

  Quem sabe, então “Lugar de mulher é longe do campo”?

  Pensando bem, essa também não serve! Meu namorado disse que eu posso (e devo, segundo ele!) brincar com as minhas amigas... Futebol de mentirinha, pode (Porque se o que eles jogam é Futebol e eu não posso jogar com eles, eu só posso jogar o de mentirinha)!

 

  Bom, a verdade mesmo que eles não podem admitir para mim... Porque pega mal, nos dias de hoje, ser deliberadamente machista, né? A mulherada está um pouco mais esperta e não dá mais para homem que grita pela rua que mulher boa é na cozinha, quieta ou de quatro na cama... Então, acho que eles estão mais cautelosos com esse tipo de comentário, limitando-o na rodinha masculina pós-pelada (Olha aí, mais um motivo para eu não estar lá!) ou nos profundos pensamentos sinceros e silenciosos... Mas então, voltando à verdade mesmo que eles não podem admitir para mim... A verdade mesmo é que me falta um pinto meu*! Pequenininho que fosse...

 

  Mas a natureza é, na maior parte dos casos, rigorosa! E como eu não pretendo fazer uma cirurgia de mudança de sexo, será que ainda adianta eu queimar meu sutiã na rua ou vão achar que eu estou fazendo propaganda de cerveja?

 

***

* Para evitar ofertas.

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