Para alguns, faltou vibe positiva


Não que boyzinhos não fumem maconha, muito pelo contrário! Mas de que nunca se sentiu tanto cheiro de maconha na Anzu quanto ontem, eu tenho quase certeza. Da mesa onde eu estava, lugar privilegiado que eu ousei abandonar por um momento (arrependimento forte!), do show do Natiruts às vezes eu conseguia enxergar a cabeça de o que eu identifiquei como o vocalista da banda, cujo nome, confesso, desconheço.
Como, confesso novamente, o show não estava prendendo muito minha atenção – também, por mais que eu quisesse (e ontem eu não queria muito!), seria difícil devido à quantidade de pessoas que os organizadores conseguiram enfiar lá dentro – comecei a reparar no show que se apresentava ao meu redor. Pessoas que certamente nunca pisariam naquele antro capitalista de modinhas, estavam presentes em nome de uma causa maior: o que o próprio unknown vocalista chama de “vibe positiva”.
Ainda não consegui assimilar direito o que exatamente é uma vibe positiva, mas acredito que seja uma sensação muito boa em que um casal muito peculiar ao meu lado direito estava completamente inserido. Ele, obviamente, de dreads; calça velha, blusa larga e suja. Da onde eu estava conseguia ver bem uma bolsinha pequena, de couro e preta, transpassada. Ela, de pele morena, levava uma fita escura em cima da testa, o cabelo, dividido em dois lados, enrolados por cordões de couro marrom. Saia comprida, casaco grande e cinza de vó. Uma mistura de índia e hippie.
Ao som de “Eu e Ela”, a vibe positiva parece tê-los levado para outro plano. Cantavam alto, abraçavam-se, beijavam-se, dançavam juntos e o pior! Sequer se incomodavam com o mundaréu de gente que ficava passando toda a hora e batendo o cotovelo neles tanto quanto batiam na minha cabeça. Tampouco se incomodavam com o outro casal que estava do meu lado esquerdo; casal, por sua vez, forte estereótipo de Anzu. Ela tinha obviamente um cabelo liso, comprido e loiro (afinal, ela é um estereótipo!), parecia não sentir o mesmo frio que eu (que estava com uma blusa de gola cacharrel, cachecol e um casaco preto), afinal, vestia uma blusa que mostrava bem o fim das costas; calça literalmente entochada. Lá mesmo! Ele, não tão bonito (interessante como mulheres bonitas muitas vezes caem na besteira de se enroscar com homens feios!), gritava com ela usando todas as suas forças e uma expressão de muito poucos amigos. Como boa curiosa, passei a reparar. Provavelmente, algum bêbado passou, tentou agarrá-la enquanto ele não estava por perto e ela caiu na vaidade feminina de contar pra ele quando ele voltou. Briga forte, ao som de “Eu e Ela”.

Eu e eeeeeeeeeeeeeeeeeeela!
Smack smack smack!
Tédio!
Ai!
Vai tomar no seu cu!

Choques de cultura salvam minha noite!

Influências...

 

 Tive uma criação radicalmente e impositivamente católica que se perpetua até hoje na minha convivência familiar. Assim, sinto certa liberdade em escrever sobre a influência particular da religião na vida das pessoas. Como tenho escrito textos muito longos, tentarei limitar-me um pouco; acho que vocês podem aproveitar mais a leitura, não?

 

  Sentada no computador, no típico ócio das férias, procurando jogos bobos online. Não tenho vontade de ler nada muito cult. Chega minha mãe mostrando-me o boletim da Ordem Franciscana que ela assina. Comportamento típico; ela quer fazer a religião sempre presente, por mais que eu insista em me afastar dela. O boletim chega no nome do meu irmão menor; ela justifica que ele se sente triste por não receber nada do correio. Não consigo mais ver ingenuidade nas ações dela; inconscientemente, sei que ela quer que ele seja um seminarista franciscano!

 

  A influência religiosa é de tamanha força que, ainda que eu hesite, atinge-me. Desde que comecei a entender que me encontro, desde que nasci, sobre essa influência, faço de tudo para criar idéias de defesa contra ela. No entanto, de nada adianta. Se não sou pega por acreditar, sou pega pela perturbação de tentar encontrar sua manifestação nas entrelinhas – mesmo quando possa não existir manifestação, mesmo quando minha mãe realmente estivesse apenas exercendo seu terno papel de mãe dando uma correspondência no nome do caçula. Ou seja, de qualquer maneira, reconheço e consolido a tal da força.

  Força embasada pela fé. Para tudo o que a razão não explica, existe a fé, que, por sua vez, é um presente de Deus. Não é todo mundo que tem, devemos pedi-la sempre em nossas orações! Desculpa perfeita, não? A Igreja inventou o que convém e faz a lavagem cerebral, consolidada com o esquecimento – possibilitado pela tradição histórica transmitida por gerações - e justificada pela fé. Quando a natureza do ser humano o faz questionar, esse é levado a se culpar: isso é pecado! Devo ter fé...

  E o fato de se dizer que não é todo mundo que tem fé é perfeito para explicar os neofariseus que estão afastados da Igreja. Deus é universal e existe até para os que não acreditam Nele! Eles só não acreditam Nele, pobres pecadores, porque não têm fé. E não têm fé porque não rezam, assim, não a pediram em suas orações. O crime perfeito! Tudo criado para se encaixar numa lógica limitada pela religião. Se estou blasfemando, pobre de mim, mas que toda essa história de se desprender da razão em nome da fé pode ser lida como uma perfeita lógica de consolidação de influência de poder, ah, isso pode!
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